Exposição na Fondazione Prada faz crítica à crise climática
Exposição ‘Everybody Talks about the Weather’, na Fondazione Prada, reúne arte e ciência para evidenciar a crise climática
Até pouco tempo, a imagem que resumia a crise global do clima era a do urso polar sobre um pedaço desprendido de um iceberg. Forte, com certeza, porém distante a ponto de preocupar os mais conscientes. Mas os canais de Veneza completamente secos, em consequência da falta de chuvas na Europa neste ano, já aparecem como símbolo mais midiático de que o problema chegou até nós. Não parece ser casual a cidade italiana abrigar a exposição Everybody Talks about the Weather, no palácio histórico de Ca’ Corner della Regina, sede da Fondazione Prada.
O evento visa explorar a semântica do “clima” nas artes visuais, por meio de mais de cinquenta obras de artistas contemporâneos e uma seleção complementar de peças históricas, traçando as várias maneiras pelas quais a questão climática e a evolução da sociedade nos moldaram – e como a Humanidade tem respondido a isso. Seguindo-se às exposições Human Brains: It Begins with an Idea, apresentada em Veneza em 2022, e Cere anatomiche: la specola di Firenze | David Cronenberg, atualmente em andamento em Milão, este projeto representa outra tentativa de abordar desafios culturais mais amplos, empregando as ferramentas conjuntas da ciência e da criação artística.
O EVENTO VISA explorar A semântica DO “clima” NAS artes VISUAIS, POR MEIO DE MAIS DE CINQUENTA OBRAS DE ARTISTAS contemporâneos
Desta forma, devemos adentrar o espaço expositivo levando, de mãos dadas, nossos lados racional e sensível. Ou seja, só vamos entender o que está ali utilizando a dupla lente da arte visual e da ciência. É com esta responsabilidade que Everybody Talks about the Weather se espalha em dois níveis, o térreo e o primeiro andar do edifício. Para tornar tudo mais acessível, foram incluídos quinhentos textos acompanhados de mapas, diagramas e outras representações gráficas. Assim, obras pictóricas e gravuras de velhos mestres, como Gustave Courbet, Katsushika Hokusai, Plinio Nomellini e Carlo Francesco Nuvolone, conversam com trabalhos recentes ou inéditos de artistas como Giorgio Andreotta Calò, Theaster Gates e Beate Geissler & Oliver Sann, estabelecendo uma continuidade ideal entre passado, presente e futuro. Ou, inversamente, provocando um curto-circuito entre visões opostas e noções discordantes, como os desenhos a lápis coloridos e diarísticos do artista inuíte Shuvinai Ashoona justapostos a uma fotografia do pioneiro da arte conceitual alemã, Hans Haacke. O resultado, como desejado, assombra. Com 40 anos de intervalo, por meio de suas descrições anedóticas do fenômeno da evaporação, os dois artistas antecipam ou abordam abertamente a emergência do aquecimento global.
E, se há aquecimento, há vapor. E nuvens, que desde tempos imemoriais assumem formas que nos fazem imaginar. São elas “objetos” de pura contemplação estética ou anseio romântico em uma entidade densa de significado político para Jitish Kallat, com seus estudos Rain, enquanto Pae White imita a natureza efêmera dos fenômenos atmosféricos, introduzindo elementos de mistério e maravilhamento. Muitas nuvens? Dilúvio. O pintor queniano Richard Onyango e o artista haitiano Alix Oge criam duas variações da imagem arquetípica da chuva incessante em uma escala diferente, gerando duas representações poderosas da força incontrolável e assustadora da natureza.
O belga Pieter Vermeersch expõe duas peças nesta mostra: no primeiro andar, uma nova obra incorporando um elemento geológico característico e, em seguida, uma intervenção cenográfica integrando oito réplicas de obras históricas de Giorgione, Pieter Brueghel, Hendrick Avercamp, Nicolas Poussin, John Constable, Caspar David Friedrich, William Turner e Claude Monet, para transmitir a evolução da influência dos padrões climáticos em mudança na história da arte. Também dividida pelos dois andares de exposição estão as obras de Jason Dodge, em que convida, em um piso, artesãos de todo o mundo a “tecer fios da cor da noite e comprimento igual à altura da terra até acima do clima”. A segunda obra em exibição é composta em parte por abelhas mortas para invocar o espectro de um potencial “apocalipse de insetos” e o impacto catastrófico que isso teria nos ecossistemas.
Com o filme subaquático Deep Breath, o Raqs Media Collective (um grupo de artistas, profissionais de mídia, curadores, pesquisadores, editores e catalisadores de processos culturais) documenta a busca de três mergulhadores por um fragmento de um antigo aforismo grego relacionado aos perigos do esquecimento – mais especificamente, a forma mais básica e mortal de amnésia, o chamado “esquecimento do ar”. Este trabalho também evoca a condição cataclísmica de sua cidade natal, Délhi, a capital mais poluída do mundo. Além do cenário e das obras em questão, há mais. Reserve o olhar para o design da exposição, assinado pelo estúdio 2x4, com sede em Nova York, e criado em colaboração com o Te New Institute Center For Environmental Humanities (NICHE) da Universidade Ca’ Foscari, em Veneza. Tem conteúdo para ver, assistir e, inclusive, ler. Neste sentido, uma série de “estações de pesquisa” estão prontas para apresentar mais de 500 livros, publicações e artigos científicos e uma seleção de materiais em vídeo e entrevistas com acadêmicos e ativistas. O objetivo é oferecer aos visitantes que quiserem se aprofundar nas questões científicas e culturais abordadas pela exposição as diversas fontes bibliográficas da extensa pesquisa por trás da mostra.
Projeto grandioso que, como tal, segue com vida própria. Um livro ilustrado publicado pela Fondazione Prada acompanha a exposição, que segue até 26 de novembro. Ainda, Everybody Talks about the Weather será complementada por um seminário aberto ao público agendado para o mês de outubro, com três dias de palestras de cientistas, autores e acadêmicos, com o objetivo de abordar os temas explorados na mostra em uma perspetiva mais ampla.