Hommes

Precisamos falar sobre a transfobia

Você sabia que o Brasil ocupa o topo do ranking como o país mais perigoso para pessoas trans e travestis viverem? 

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Faz 13 anos que o Brasil ocupa o topo do ranking como o país mais perigoso para pessoas trans e travestis viverem. Em 2020, 175 homicídios foram registrados por aqui – alta de 41% em relação a 2019. Para ilustrar, uma morte é cometida a cada dois dias motivada por discriminação de identidade de gênero. E, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA), há evidências de subnotificação de casos. Segundo a ONG Transgender Europe (@tgeuorg), que monitora mais de 70 países, a cada dez assassinatos de pessoas trans no mundo, quatro ocorrem no Brasil. 

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Xica Manicongo, negra, escrava e travesti que viveu em Salvador, em 1591, segue sendo um símbolo de resistência. Depois dela, o Brasil viu surgir potências como Rogéria, Monique Lamarque, Roberta Close, Paulette Pink, Carol Marra, Lea T, Glamour Garcia, Linn da Quebrada, Pretinha Ytally e tantas outras.  Para ampliar o discurso de protagonismo e erradicar a transfobia, é importante cravar o dia 29 de janeiro como uma data fundamental para o debate social. É hoje que o Dia Nacional da Visibilidade Trans e Travesti ocupa o calendário com pautas necessárias que visam descortinar a invisibilidade e garantir oportunidades como forma de romper o ciclo do preconceito. Por isso, abrimos espaço para apresentar algumas personalidades e histórias que inspiram.

 
 

NA TEVÊ 

Cláudia Celeste foi pioneira ao estrear no universo televisivo, em 1977, na novela “Espelho Mágico”, contracenando com a diva Sônia Braga. Seguindo os passos da ex-miss Brasil Gay (como era chamado o concurso na década de 1970) – e motivada pela tia musa Roberta Close –, a carioca Gabrielle Gambine (@gabriellegambinee), de 23 anos, está na série “Verdades Secretas 2” e já é dona de portfólio que conta com marcas como MAC, Havaianas e Avon. “Há um longo caminho a percorrer na luta contra o preconceito, por isso precisamos evoluir questões que naturalizem a diversidade humana. É muito representativo ocuparmos todos esses lugares. Quando o grande público vê pessoas trans sendo amadas, respeitadas e construindo histórias fora da marginalidade, fortalecemos esse imaginário. Isso nos motiva a continuar em movimento, buscando reafirmar nossa humanidade e dignidade na sociedade. O mês da visibilidade trans e travesti é um mês que fala muito sobre a conscientização a respeito das nossas demandas”, diz. Quem também entrou em cena foi a brasiliense Gabrielle Joie (@gabejoie), que esteve nos elencos das novelas “Bom Sucesso” e “Toda Forma de Amor”, e do seriado “Sob Pressão”.

 
 

NA MODA 

Primeiro homem trans a pisar na passarela da moda do São Paulo Fashion Week, em 2019, e a estampar a capa da L’Officel Hommes, Sam Porto (@samporto), que também é tatuador, soma conquistas de causar inveja: já posou para o fotógrafo Mario Testino, estrelou campanha da Calvin Klein e fez ligar os radares dos principais veículos fashionistas. A paulistana Lana Santucci (@lanamsantucci) surgiu aos olhos da crítica depois de participar do reality “Born to Fashion” (exibido pelo canal E!). Desde então, ela ilustrou pencas de editoriais e até lacrou o desfile da À La Garçonne, de Alexandre Herchcovitch. Aposta da Joy Management, Kayla Oliveira (@kaylago_) saiu do sertão cearense para virar o jogo na Pauliceia. A moça integrou o The Look of the Year, 2018, e ficou entre as finalistas. Quem também zanzou pelo concurso foi Carolina Leone (@_carolinaleone), que deixou para trás 20 mil candidatas na edição de 2019 e ganhou contrato com agências da gringa.

 
 
 
 

NO ESPORTE 

Nascida em um quilombo no interior do Maranhão, a jovem Pretinha Ytally sempre gostou de futebol. Começou no esporte ainda criança, vestindo a camisa sete, em times masculinos. Até que, em 2019, ela se entendeu trans, e resolveu buscar representatividade e disputar ligas voltadas para pessoas LGBTQia+. Poetisa, militante quilombola e atleta de alto rendimento (embora sem nenhum patrocínio, o que a obriga a viver de vaquinhas solidárias), a centroavante mira os campeonatos nacionais e internacionais para mostrar o seu talento. “Fui eleita a melhor jogadora e a artilheira da temporada. Mas é preciso ir além disso. Sou ousada, sou alegre, sou guerreira, sou boleira. Adoro o futebol e recuso-me a sentir que sou menos feminina por causa disso. Se nós, pessoas trans, não lutarmos pelos espaços que nos são devidos, sempre seremos caladas. Quando você dá valor ao futebol diverso, você silencia o machismo no esporte”, dispara. @pretinha_ytally

 
 

NA ARTE 

Paula Sabbatini é uma das figuras mais icônicas do universo LGBTQia+. Travesti num tempo em que a palavra era sinônimo de marginalidade, a artista plástica – com duas graduações em universidades públicas –, cantora, empreendedora, performer, atriz, drag queen cor-de-rosa (e não provoque!) Paulette Pink, e ativista, conhece bem as barreiras impostas pelo preconceito de gênero. Ela já perdeu as contas de quantas vezes se viu intimidada pela censura “da boa e puritana família brasileira”, dos trabalhos roubados e dos inúmeros romances que jamais a reconheceram publicamente. “O preconceito é velado, mas está em todo lugar. Hoje, as leis ajudam a minimizar a transfobia, mas não significa que ela tenha desaparecido. Como disse, ela é disfarçada. O Brasil é o país em que mais se consome conteúdo pornográfico com travestis – porém, isso fica entre quatro paredes – e o desejo ‘reprimido’ explode em agressão. Nós ainda somos vistas como fetiche, objetificadas sexualmente e condenadas à solidão perpétua. É sobre isso que precisamos falar hoje e amanhã.” @paulettepinkoficial

 
 

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